Quem mobilizará o eleitor em 2026? A transformação da sociedade civil brasileira
- TV da Democracia
- 26 de ago.
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Priscila Zanandrez
Uma das perguntas centrais para compreender as eleições de 2026 será: quem, afinal, conseguirá mobilizar o eleitor brasileiro? Durante boa parte do processo de democratização, essa capacidade esteve concentrada em atores coletivos organizados — partidos, sindicatos, associações comunitárias, igrejas, organizações não governamentais e movimentos sociais. Esses espaços não apenas apresentavam demandas ao Estado, mas também produziam vínculos, identidades políticas e formas duradouras de participação. Nas próximas eleições, entretanto, essa mediação ocorrerá em uma sociedade civil profundamente transformada.
Nas últimas décadas, novos atores, agendas e formas de organização passaram a ocupar o espaço público brasileiro. Ao lado dos movimentos populares e organizações historicamente associados à redemocratização, ganharam protagonismo movimentos conservadores, organizações religiosas, coletivos articulados em torno de pautas morais e grupos mobilizados contra políticas públicas específicas. A partir da década de 2010, especialmente após as manifestações de 2013, esses atores ampliaram sua capacidade de convocação, produziram novas lideranças e consolidaram formas próprias de organização política.
A internet desempenhou papel decisivo nesse processo ao reduzir os custos de mobilização e conectar grupos dispersos. Mas ela não explica, sozinha, essa transformação. As mobilizações contemporâneas articulam redes digitais, organizações comunitárias, participação religiosa e presença institucional. A força desses movimentos depende tanto da circulação de mensagens quanto da existência de espaços capazes de produzir vínculos, lideranças e pertencimento.
As igrejas evangélicas ilustram bem essa dinâmica. Nas últimas décadas, parte importante desse campo desenvolveu grande capacidade de mobilização em torno de pautas relacionadas à família, à educação e aos costumes, ampliando sua presença nas eleições, nos parlamentos e nas disputas por políticas públicas. Ao mesmo tempo, embora minoritários, também existem coletivos e lideranças evangélicas progressistas, mostrando que o universo religioso está longe de constituir um bloco homogêneo.
Essa transformação alcançou também as instituições participativas. Conselhos, conferências e audiências públicas, concebidos para ampliar a participação cidadã, passaram a refletir uma sociedade civil mais plural e polarizada. Organizações conservadoras perceberam que esses espaços também poderiam ser ocupados para influenciar políticas públicas e disputar legitimidade em temas como educação, gênero, direitos das mulheres e liberdade religiosa.
A retomada das instituições participativas durante o terceiro governo Lula ampliou essas oportunidades. A reativação de conselhos, conferências e outros mecanismos de participação não representa apenas a reconstrução de uma agenda interrompida, mas a abertura de espaços para uma sociedade civil bastante diferente daquela que predominava nos primeiros governos petistas. Hoje, esses espaços são ocupados por atores com projetos políticos concorrentes, tornando-se arenas de disputa sobre políticas públicas e sobre quem pode falar em nome da sociedade.
As pesquisas A Cara da Democracia ajudam a interpretar esse cenário ao mostrar que a participação associativa não produz automaticamente maior compromisso com valores democráticos. Seus efeitos dependem do tipo de organização, das relações construídas em seu interior e das motivações que levam os indivíduos a participar. A sociedade civil pode fortalecer a cooperação e a cidadania, mas também reforçar intolerâncias e projetos políticos excludentes.
Esse ponto é particularmente relevante para compreender 2026. Os atores que disputarão a próxima eleição não foram mobilizados apenas durante a campanha. Eles vêm se organizando há anos em igrejas, movimentos, associações, manifestações, conferências, conselhos e comunidades digitais. Ao longo desse processo, construíram lideranças, consolidaram redes e fortaleceram identidades políticas.
As eleições de 2026 poderão revelar, portanto, os efeitos de uma sociedade civil mais ativa, porém também mais polarizada e disputada. Movimentos progressistas tentarão mobilizar agendas relacionadas à democracia, à inclusão social e aos direitos. Organizações conservadoras buscarão converter sua presença nas igrejas, nas ruas, nas redes e nas instituições em força eleitoral. Entre esses campos, haverá ainda uma diversidade de associações e cidadãos cujas escolhas não são previamente determinadas.
Para compreender o próximo pleito, não bastará acompanhar partidos, candidatos e pesquisas de intenção de voto. Será necessário observar quais organizações conseguirão transformar vínculos sociais em mobilização política, quais grupos serão capazes de circular entre as ruas, as redes e as instituições e quais interpretações sobre a democracia encontrarão maior ressonância. A principal questão talvez não seja se a sociedade civil participará das eleições de 2026, mas qual sociedade civil será mais capaz de organizá-las politicamente.

