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O território virou reduto eleitoral: como o crime organizado disputa o voto no Brasil

  • Foto do escritor: TV da Democracia
    TV da Democracia
  • 27 de ago.
  • 10 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Decisões judiciais e investigações em pelo menos seis estados mostram candidatos, agentes públicos e estruturas eleitorais sob influência de facções e milícias. Minas Gerais é o capítulo mais recente: operações contra o Comando Vermelho tentam impedir que o domínio territorial se converta em poder político antes que isso aconteça



Roberta Fernandes Santos*


Em outubro de 2025, Santa Quitéria, cidade de 43 mil habitantes no interior do Ceará, votou sob escolta do Exército.


Não havia guerra nem catástrofe natural. Havia uma eleição suplementar, convocada depois que a Justiça descobriu que o prefeito e o vice haviam sido eleitos, um ano antes, com a ajuda do Comando Vermelho.


Pichações ameaçavam de morte quem apoiasse o adversário. Mensagens prometiam expulsar da cidade quem não votasse certo. Um carro de luxo comprado em Fortaleza foi levado até a Rocinha, no Rio, como agradecimento a um traficante nascido ali.


O Tribunal Regional Eleitoral do Ceará chamou o caso de o mais grave já julgado em sua história. Mas não é um acidente isolado: é a ponta mais visível de um padrão que se repete, com variações, de Belford Roxo a Cotia.


Um vereador que chefiava uma milícia foi barrado pelo TSE mesmo sem condenação. Um candidato a deputado estadual foi preso por operar a lavagem de dinheiro do PCC. Vereadores de três cidades paulistas caíram na mesma operação, suspeitos de fraudar licitações a mando da facção.


Juntos, esses episódios formam o retrato mais detalhado já produzido sobre como o Brasil chegou a um ponto em que dominar um território deixou de significar apenas controlar o tráfico ou cobrar propina: passou a significar, também, eleger gente.


Duas tradições de pesquisa ajudam a entender o fenômeno: a sociologia da violência urbana, que mostra como organizações armadas constroem autoridade sobre territórios e populações, e a ciência política, que acompanha o passo seguinte, ou seja, o que ocorre quando esse domínio encontra eleições, partidos e burocracias públicas. Lidas em conjunto, elas mostram não uma passagem automática do crime ao voto, mas os mecanismos que tornam essa conversão possível.


Território e rede: as duas fontes de poder


O crime organizado acumula poder por duas vias que nem sempre caminham juntas: território e rede.


O território é a face mais visível: a capacidade de ocupar um espaço, regular a vida cotidiana, cobrar taxas, limitar concorrentes e usar a violência para sustentar uma ordem local. É esse poder que operações como a Ícaro, em Minas Gerais, tentam interromper antes de sua consolidação.


A rede funciona de outro jeito: traficantes, lideranças comunitárias, policiais e políticos se conectam por relações que atravessam fronteiras de bairro. O pesquisador Michel Misse chamou essa troca clandestina de "mercadoria política": quando agentes situados no próprio Estado transformam proteção, informação ou influência em recursos negociáveis. Nesses casos, o crime não precisa dominar fisicamente um território: precisa alcançar posições estratégicas.


Essa diferença ajuda a separar milícias e facções, que têm formas distintas de expansão: o domínio miliciano depende fortemente da ocupação física e ostensiva, enquanto a força do PCC também se apoia em redes disciplinares que conectam cárcere e rua. As operações reunidas neste artigo mostram as duas lógicas: coerção territorial em municípios do Ceará e da Paraíba, redes políticas e financeiras em investigações no Rio de Janeiro e em esquemas atribuídos ao PCC. Minas permite observar as duas sem presumir que uma vá necessariamente se converter na outra.


Governar sem ser Estado


Esse poder de regular populações tem nome na literatura especializada: governança criminal. O conceito descreve situações em que atores armados não estatais passam a exercer funções como cobrança de taxas, resolução de conflitos, provisão de segurança e imposição de normas. Quando isso ocorre de forma estável, a organização não apenas pratica crimes: passa a disputar, em determinados espaços, a autoridade de definir regras e comportamentos.


Por isso, cresce entre pesquisadores a proposta de tratar organizações criminosas também como atores políticos, capazes de negociar, barganhar e ocupar espaços de poder. A passagem para a política eleitoral, porém, não é automática: depende da capacidade de transformar coerção, relações sociais, dinheiro e conexões institucionais em recursos eleitorais.


Os agentes públicos dentro da rede


A rede raramente é feita só de criminosos. A "mercadoria política" só existe porque um agente do próprio Estado topa vendê-la: é o policial que avisa sobre uma operação antes que ela aconteça, o servidor que aprova uma licença sem checar os documentos, o político que indica um nome para um cargo em troca de apoio.


As operações reunidas nesta reportagem estão cheias desses personagens. Na Operação Unha e Carne, a Polícia Federal encontrou o nome de um delegado federal em planilhas de pagamento atribuídas ao contraventor investigado, ao lado de deputados e do próprio ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, acusado de interferir em nomeações de secretarias estaduais.


No balanço de 2025 do Gaeco do Ministério Público do Rio, entre os denunciados por ligação com organizações criminosas estavam servidores do sistema socioeducativo estadual, do órgão ambiental do estado e ex-secretários municipais. Em Sobral, a Operação Omertá afastou preventivamente uma policial militar que atuava no policiamento da própria área dominada pela facção e é casada com um chefe do Comando Vermelho já preso.


Ao decretar a prisão preventiva de Bacellar, na Operação Unha e Carne, o ministro do STF Alexandre de Moraes apontou fortes indícios de participação em organização criminosa, descrevendo uma atuação voltada à obstrução de investigações envolvendo facção criminosa e à interferência no Poder Executivo estadual. A defesa do ex-presidente da Alerj nega qualquer vínculo com os fatos apurados e sustenta que sua atuação sempre observou a legalidade.


Fonte: CNN Brasil, dezembro de 2025.


Esses casos mostram por que reduzir essas redes ao "mundo do crime" é um erro. A mercadoria política depende justamente da conexão entre mercados ilegais e posições formais de autoridade. Quando agentes públicos negociam informação, proteção ou influência e organizações criminosas oferecem dinheiro, apoio ou coerção, a fronteira entre legal e ilegal deixa de ser uma linha nítida e passa a funcionar como zona de troca, o que torna a governança criminal mais resistente a respostas concentradas apenas nas ruas.


Como o mesmo núcleo criminoso projeta poder sobre quatro domínios ao mesmo tempo.


A ordem que vem antes do voto


Antes de qualquer disputa eleitoral, uma organização criminosa instalada em um território pode alterar profundamente a vida cotidiana. Pesquisadores chamam de "sociabilidade violenta" a situação em que a força deixa de ser episódio excepcional e passa a orientar relações sociais. Mercados ilegais produzem, ao longo do tempo, redes, reputações e formas próprias de regulação. Esse enraizamento pode existir muito antes de qualquer tentativa de influenciar uma urna.


Códigos do "mundo do crime" e, no caso do PCC, o "proceder", regulam dívidas, conflitos e comportamentos em contextos onde a Justiça formal é distante ou lenta. Isso não significa adesão homogênea da população: a literatura brasileira também registra resistência, distanciamento moral e convivência pragmática. O ponto central é outro: quando uma organização passa a mediar conflitos e impor regras, ela acumula recursos sociais que, em certas condições, podem ser mobilizados politicamente.


Quando o território vira voto


É nesse ponto que a ciência política entra: quando a ordem territorial encontra a política institucional. Organizações armadas podem oferecer intermediação eleitoral, mobilizando eleitores, protegendo campanhas ou neutralizando adversários. O mecanismo aparece em Cabedelo, na Paraíba, onde investigações apontaram apoio armado à estrutura política local, e em Santa Quitéria, no Ceará, onde a Justiça registrou ameaças e distribuição de drogas em troca de votos.


Outra consequência é a redução da competitividade eleitoral: quanto maior o domínio armado, menor a capacidade de outros grupos disputarem política nesses territórios. Em Sobral, a Operação Omertá investigou um "pedágio eleitoral" de até R$ 60 mil cobrado de candidatos para entrar em áreas sob influência do Comando Vermelho. Estudos sobre a geografia do voto das milícias no Rio também identificam concentração eleitoral em áreas de domínio desses grupos, sem que isso signifique controle automático de todos os eleitores.


O promotor Igor Pinheiro, coordenador do Grupo Auxiliar Eleitoral do Ministério Público do Ceará, disse que candidatos que disputam as eleições de 2026 relataram ameaças e extorsões, e que os episódios chegaram a provocar o cancelamento de eventos políticos em julho.


Fonte: O Cafezinho / Cruzeiro FM, agosto de 2026.


Depois da eleição, o recurso pode mudar de forma: apoio eleitoral concentrado pode ser trocado por proteção institucional, nomeações e influência sobre políticas públicas. Em Belford Roxo, investigados com candidaturas barradas chegaram a ocupar cargos no Executivo municipal. A captura, portanto, pode sobreviver mesmo quando a via eleitoral direta é fechada.


A coerção também afeta quem aceita disputar uma eleição. Ao elevar o custo financeiro e físico da oposição, grupos armados podem afastar candidaturas independentes. A experiência internacional reforça esse mecanismo: estudos sobre a máfia italiana mostram o uso de violência seletiva e compra de votos para moldar disputas locais. No Brasil, investigações sobre fraude de domicílio eleitoral e controle territorial revelam estratégias semelhantes, embora os contextos institucionais sejam diferentes.


A tese da democracia por vias não eleitorais


O problema ultrapassa a segurança pública porque atinge as condições anteriores ao voto. Há uma leitura, hoje influente entre cientistas políticos brasileiros, sobre formas não eleitorais de disputa pelo poder: uma eleição pode ser formalmente regular e, ainda assim, ocorrer em ambiente no qual medo, dependência econômica ou coerção territorial reduziram a liberdade de escolha. A erosão democrática, nesse caso, começa antes da abertura das urnas.


Minas Gerais: um estágio distinto da disputa


Minas Gerais é um caso instrutivo não porque prove que o Estado "chegou antes", mas porque permite observar uma configuração ainda distinta daquela documentada em decisões eleitorais do Rio de Janeiro, da Paraíba e do Ceará.


Uma pesquisa da socióloga Thais Lemos Duarte, do CRISP/UFMG, falecida em 2023, e de Isabela Cristina Alves de Araújo sobre a expansão do PCC no estado identificou dimensões bélica, empresarial e fraternal de sua presença. O processo mostra que o enraizamento criminal pode avançar por pertencimento, proteção, mercados e redes antes de adquirir expressão político-eleitoral visível.


A Operação Ícaro, do Ministério Público de Minas Gerais, incidiu sobre essa infraestrutura ao cumprir mais de 200 mandados e bloquear R$ 8,4 milhões vinculados, segundo a investigação, à estrutura do Comando Vermelho na Zona da Mata.


Em coletiva após a terceira fase da operação, o governador Mateus Simões (Novo) classificou a ação como uma operação que desestrutura a presença regional do Comando Vermelho. O procurador-geral de Justiça do MPMG, Paulo de Tarso Morais Filho, disse que o resultado mostra a missão institucional do órgão de combater o crime organizado em sua raiz, desarticulando suas estruturas no estado. O promotor Roberto Pinheiro Silva Freire, titular da Comarca de Leopoldina, afirmou que o tráfico de drogas era a principal atividade nas áreas dominadas pela facção na região.


Fontes: MPMG e Metrópoles, maio de 2026.


O dado permite falar em intervenção sobre capacidades bélicas e financeiras em formação. Não permite, por si só, concluir que essa atuação tenha impedido uma futura captura eleitoral: essa é uma hipótese que dependeria de acompanhamento longitudinal e de evidências sobre vínculos políticos, eleitorais e territoriais.


A comparação, portanto, deve ser feita com cautela. No Rio, na Paraíba e no Ceará há casos em que a Justiça já examinou coerção eleitoral, apoio armado a candidaturas ou vínculos entre estruturas criminosas e agentes políticos. Em Minas, as operações citadas neste artigo se concentram, até aqui, sobretudo na infraestrutura criminal e financeira.


A diferença pode decorrer do momento de expansão das facções, da configuração dos mercados ilícitos, das formas locais de governança ou da resposta institucional. O ponto relevante é que o estado oferece uma oportunidade de observar se, e em quais condições, recursos territoriais e de rede serão ou não convertidos em capital político.


Dez operações, um só padrão


Reunidas, as investigações que embasam esta reportagem mostram um mesmo mecanismo se repetindo sob nomes e siglas diferentes, de norte a sul do país:


Operação

Local

Objetivo

Prejuízo ao crime organizado

Nômade Eleitoral

Itaguaí / Santa Cruz (RJ)

Desarticular fraude de domicílio eleitoral para reforçar a base de um candidato a vereador

6 buscas, sequestro de bens; respostas por organização criminosa e corrupção de menores

Indeferimentos TSE (Belford Roxo)

Belford Roxo (RJ)

Barrar candidaturas de integrantes de milícia armada, com ou sem condenação formal

Candidaturas indeferidas definitivamente; TSE consolida tese vedando candidatos ligados a organizações paramilitares

Caso Clébio Jacaré

Nova Iguaçu / interior fluminense

Impugnar candidatura ligada a desvio de dinheiro público e "assunção paralela" de prefeituras

Candidatura sob impugnação nas eleições de 2026; candidatura a prefeito já indeferida em 2024

En Passant I e II

Cabedelo (PB)

Apurar compra de votos e nomeações da "Tropa do Amigão" (CV) na gestão municipal

Cassação de 3 mandatos; inelegibilidade de 8 anos para 4 políticos

Caso Santa Quitéria

Santa Quitéria (CE)

Apurar apoio armado do CV a prefeito reeleito, com ameaças e drogas em troca de voto

Cassação e inelegibilidade de 8 anos; reforço das Forças Armadas na eleição suplementar

Operação Omertá

Sobral (CE)

Apurar "pedágio eleitoral" cobrado pelo CV para autorizar campanhas no território

14 prisões preventivas, 25 buscas; 3 vereadores presos e afastados por 180 dias

Operação Cátaros

Cotia (SP)

Apurar candidato a deputado estadual como operador financeiro do PCC

2 prisões, 11 buscas; mandado de prisão também contra a esposa do candidato

Operação Munditia

Ferraz de Vasconcelos, Santa Isabel e Cubatão (SP)

Desarticular vereadores ligados a fraude em licitações em favor do PCC

13 prisões temporárias, 42 buscas; dinheiro, cheques e armas apreendidos

Operação Ícaro (I a III)

Zona da Mata mineira, Juiz de Fora e região (MG)

Impedir a consolidação territorial do CV em Minas antes de qualquer capital eleitoral

200+ mandados, 60 e depois 49 prisões; R$ 8,4 milhões bloqueados

Carbono Oculto / Fluxo Oculto

SP, com extensão a MG, RJ, PR e MS

Apurar infiltração financeira do PCC no setor de combustíveis via fintechs

Mandados em 5 estados; bilhões de reais em movimentações rastreadas

 

Considerações finais


Os casos reunidos aqui apontam um mecanismo recorrente, mas não inevitável. O domínio territorial não produz automaticamente poder eleitoral. Ele cria, porém, recursos que podem ser convertidos em influência política: capacidade de coerção, controle da circulação, intermediação de conflitos, redes econômicas e acesso privilegiado a populações e agentes públicos. A rede amplia esse alcance ao conectar organizações criminosas a posições estratégicas fora do território que controlam.


A ciência política ajuda a identificar quatro formas dessa conversão: intermediação eleitoral, redução da competitividade, captura burocrática depois do voto e afastamento de candidaturas independentes. Elas aparecem, com intensidades diferentes, nas investigações reunidas neste artigo.


O efeito democrático não se limita à fraude eleitoral: começa quando a liberdade de fazer campanha, concorrer ou escolher já está condicionada por coerção, dinheiro ou dependência.


Minas Gerais não demonstra que esse desfecho tenha sido evitado. Mostra algo talvez mais útil: a possibilidade de observar o processo antes de sua eventual conversão eleitoral. Saber se operações contra armas, dinheiro e estruturas territoriais serão suficientes para impedir essa passagem exige acompanhamento e comparação.


A disputa central dos próximos pleitos será justamente essa: se o Estado conseguirá limitar a transformação de poder criminal em poder político antes que redes armadas e ilícitas passem a interferir de forma estável sobre quem pode concorrer, fazer campanha e governar.


Saiba mais


Este texto se apoia em pesquisas de Enrique Desmond Arias, Leonardo Avritzer, Nicholas Barnes, Camila Nunes Dias, Gabriel Feltran, Benjamin Lessing, Luiz Antonio Machado da Silva, Michel Misse e Jacqueline Muniz, entre outros, sobre governança criminal, sociabilidade violenta, redes ilícitas e captura eleitoral no Brasil e na América Latina.


O capítulo mineiro se apoia no estudo pioneiro sobre a expansão do PCC em Minas Gerais, de autoria da socióloga Thais Lemos Duarte (CRISP/UFMG), falecida em maio de 2023, e de Isabela Cristina Alves de Araújo, hoje doutoranda na UFSCar e pesquisadora do CRISP/UFMG, que segue ativa na linha de pesquisa sobre o tema. Referências completas disponíveis com a reportagem, mediante solicitação.


Fontes institucionais e jornalísticas


Tribunal Superior Eleitoral (TSE); Tribunais Regionais Eleitorais do Rio de Janeiro, Paraíba e Ceará; Ministério Público Federal / Ministério Público Eleitoral; Ministério Público do Rio de Janeiro (Gaeco/MPRJ); Ministério Público de Minas Gerais (Gaeco/MPMG); Ministério Público de São Paulo (MPSP); Ministério Público do Ceará; FICCO/CE; Polícia Federal. Notícias de Conjur, MPF, TSE, CartaCapital, Diário do Nordeste, Revista Fórum, CNN Brasil, Metrópoles, Terra e Gazeta do Povo (2024–2026). Casos ainda em investigação ou denúncia não equivalem a condenação definitiva.


*Roberta Fernandes Santos é doutora em Ciências Sociais e pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais CRISP-UFMG.


 
 
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